quarta-feira, 1 de abril de 2015




A Balada do Rohirrim




O eorlinga e a donzela.



Os campos vastos de Rohan testemunharam, ao longo dos anos, desde as mais sangrentas batalhas até os mais sublimes milagres. Muitas vidas foram perdidas pelo fio das espadas, manchando de rubro o outrora perene verde da terra dos cavaleiros. Por outro lado, muitas outras vidas e muitas belas histórias tiveram seu início sob o céu e as estrelas que vigiam os campos dos senhores dos cavalos.

Edoras, a grande cidadela dos cavaleiros, era o lar de Alec, filho de Josec, um bravo e honrado rohirrim. Sua casa era tradicional no reino de Rohan e sua família servia aos senhores de Meduseld quase há tanto tempo quanto a chegada de Eorl naquelas planícies.

Desde muito jovem, Alec conhecia e desejava com ardor seu destino. Hábil com uma espada, dizia-se que já nascera montado em um cavalo. Era um domador nato: Conseguia comandar tanto os animais quanto os homens de sua tropa com tanta maestria que não demorou muito para se tornar um dos mais respeitados e amados capitães dos eorlingas.

Era tão admirado por todos na cidadela que muitos pais o cobiçavam para um proveitoso enlace matrimonial. Assim, muitas jovens lhe foram apresentadas, porém, durante algum tempo, Alec vivia apenas para as armas e para sua amada Rohan. Ser rohirrim e estar cavalgando livremente pelos campos eram, sem dúvida, tudo o que o rapaz mais apreciava na vida.

No entanto, o bravo rohirrim não se privava de sua vida social e gostava muito de visitar a taberna, onde podia beber e discutir sobre os mais variados assuntos na companhia de seus melhores amigos, seus companheiros de armas. Na verdade, Alec gostava bastante de festas e sempre participava dos festivais realizados na cidadela.

Entre seus melhores amigos, um se destacava. Seu nome era Armitage e era, em todos os sentidos, muito diferente de Alec. A começar pelo físico, pois Armitage era bem mais baixo e menos encorpado do que o altivo capitão. Além do que Alec era sempre um tanto austero e silencioso, apesar de gentil e dedicado, enquanto que Armitage era falastrão e fraco tanto para bebidas quanto para mulheres. Mas, apesar de tantas diferenças, ambos eram inseparáveis, e Alec, muitas vezes, lhe servia de cabresto sempre que o Armitage se envolvia em uma má situação.

Um dia houve um festejo primaveril em Rohan. Toda a cidade estava enfeitada com as mais diversas cores e muitas guirlandas de flores estavam penduradas nas portas das casas e no próprio palácio. Até mesmo as pessoas pareciam mais alegres com a chegada da nova estação e as ruas apinhadas de barracas de comida enchiam o ar de alegria e bonança.

A mesma animação contagiava o castelo de Meduseld onde a principal comemoração se desenrolava. Um farto banquete era servido aos convidados e a música se espalhava pelo salão fazendo os pares de animados festeiros rodopiarem em alegre dança típica dos eorlingas.

Como era de se esperar em um dia festivo em que pudessem participar, Armitage e Alec acompanhavam todo o festejo desde cedo. Já haviam andado pela cidade e experimentado as iguarias das barraquinhas e jogado os mais variados jogos disponíveis e, por fim, se juntaram às comemorações no palácio de Meduseld. Como rohirrim, tinham lugar de honra entre os senhores de Edoras, caso suas famílias não pertencessem à casa real.

Àquela altura das comemorações, Armitage já apresentava os sinais de alguém que bebera em demasia. Os seus olhos verdes estavam avermelhados e se moviam agitados de um lado para outro sem conseguir parar por muito tempo em um único lugar. Mas a fala, ao contrário dos olhos, já estava mais lenta e arrastada, como se a língua lhe pesasse dentro de sua boca, o que não lhe impedira de fazer tantos gracejos e declarações de amor à tantas moças que Alec, já se sentindo duplamente envergonhado e divertido pela atitude do amigo, se perguntava se algum dia o companheiro se envolveria seriamente com alguma delas.

Foi então que Armitage subitamente parou olhando para um único ponto como se estivesse hipnotizado e soltou um suspiro. Surpreso com aquela reação, Alec acompanhou o olhar do outro para sanar o motivo daquela mudança de comportamento e se deparou com três jovens que riam e brincavam entre si, um pouco adiante.

As três eram igualmente belas em seus vestidos bordados à mão e seus longos cabelos cor de palha, mas eram belezas diferentes entre si, apesar de se notar que eram muito parecidas e que pertenciam a alguma família nobre. Eram as três quase da mesma altura, diferenciadas por apenas alguns centímetros quase imperceptíveis e, mesmo que se pudesse supor que eram irmãs, também era possível notar as diferenças da personalidade de cada uma.

Duas delas olhavam, por vezes, para Alec e seu amigo, e riam acanhadas enquanto cochichavam e disfarçavam seus olhares quando eram surpreendidas pelo olhar dos rapazes. Mas a terceira, não! Inicialmente ela estava alheia aos cochichos de suas irmãs, mas após um comentário das duas, percebeu que os rapazes as observavam, mas não sorriu. Também não pareceu zangada, mas era, ao mesmo tempo, intimidadora, e apenas manteve seu olhar fixo nos rapazes, como quem tinha consciência de sua importância naquele local e isso bastou para que Armitage parasse de olhá-las e se virasse para Alec um tanto perturbado.

- Quem são? - perguntou Alec curioso com a reação do companheiro enquanto olhava mais uma vez para as jovens.

- São as filhas de sor Grant. - respondeu Armitage com um suspiro de desânimo se virando para o capitão. - Vê a de vestido branco com detalhes em dourado? - mostrou com um aceno de cabeça. - Se chama Anne. É a filha mais velha de Sir Grant. Ela já está em idade de se casar, mas é impossível fazer-lhe a corte.

Alec voltou o olhar para as moças e analisou um pouco a garota que Armitage lhe mostrava. A jovem Anne era realmente muito bela. Tinha feições singelas e a face corava um pouco sempre que percebia que os rapazes a olhavam e desviava os olhos com comedida simplicidade. Parecia a mais tímida e contida das três.

- Me parece uma mulher virtuosa. Mas por que a julgas impossível de cortejar? - Alec olhou o amigo novamente.

- Por causa de sua irmã… - desta vez Armitage não se virou e apenas fez uma careta pronunciando o nome com certa raiva. - Elanor… Aquela que está de vestido de cor carmesim.

Mais uma vez, Alec voltou-se para as garotas e encontrou os olhos de Elanor ainda fixos neles, enquanto Anne parecia lhe suplicar que não os encarasse. A jovem tinha um ar altivo e parecia ser bem geniosa, mas o capitão se perguntava como uma jovem tão delicada poderia ser a causa de tantos problemas.

Diante da expressão curiosa de Alec, Argmitage continuou antes de beber mais um pouco de cerveja:

- Elanor é uma verdadeira peste! Não deixa que ninguém se aproxime de suas irmãs. Outro dia tentei falar com Anne, mas esta garota atrapalha qualquer tentativa que eu faça.

- Talvez ela já conheça a sua má-fama com as mulheres. - Alec riu divertido com a careta que o amigo fez diante desta resposta inesperada.

- Estou falando sério, Alec! - reclamou Armitage desconsolado - O que eu sinto por Anne é tão grande que sinto que vai me levar alguns anos de vida, se eu não puder estar com ela.

Normalmente Alec não acreditaria em uma declaração como aquela feita por Armitage em estado de embriaguês, no entanto, havia algo a mais naquelas palavras. Talvez fosse o tom emocionado com que o amigo confessara seu sentimento ou o suspiro que ele dera assim que terminara de falar. O capitão nunca soube explicar o que era, mas sentiu dentro de si que deveria ajudar ao amigo, pois ele falava de coisas verdadeiras. Então procurou sondar um pouco mais da situação antes de prosseguir.

- Mas ela o corresponde? - perguntou enquanto fitava de relance as moças.

- Um ou dois sorrisos, foi tudo o quanto pôde dispensar a mim, pois sempre está acompanhada de suas irmãs. - Respondeu desolado. - Tudo o que eu queria era uma única oportunidade de falar com ela. Era só... Mas, como pode ver, isso é impossível. Com Elanor por perto a única coisa que consigo é ser humilhado.

Alec voltou a mirar as garotas enquanto ouvia o amigo a se lamentar. As três continuavam a conversar entre si, mas não lhe pareceu que o assunto ainda tratasse deles, posto que elas não estavam mais olhando naquela direção. Apenas Anne se atreveu a olhar por cima dos ombros das irmãs por um instante, mas o rohirrim notou a expressão triste e desapontada que ela lançou para Armitage.

Então, totalmente convencido de que deveria ajudar o amigo a conseguir a chance com a qual tanto almejava, Alec tocou o ombro de Armitage, como que para encorajá-lo e depois adiantou-se na direção das donzelas dizendo para o outro:

- Espero que não estejas assim tão bêbado e que teu sentimento seja mesmo verdadeiro.

Por sua vez, Armitage ficou, por um instante, totalmente boquiaberto. Alec iria mesmo falar com as moças? Assombrado e visivelmente constrangido, ele seguiu seu capitão e, um pouco afastado, o viu reverenciar as donzelas. Alec parecia ainda mais altivo naquele momento em que falava com as moças. Armitage observava a tudo com uma pontada de inveja. Gostaria de ter a segurança e a propriedade com que o capitão falava com Elanor de forma que, quando foi chamado para juntar-se a eles, a irmã de Anne não lhe disse nem uma única palavra rude, apesar de ainda olhá-lo com superioridade assustadora:

- Apresento-lhes, senhoritas, Armitage, filho de Kano.

Alec olhou para o amigo esperando que ele cumprimentasse as garotas ou dissesse qualquer outra coisa, mas, ao que parecia, não era somente a presença de Elanor que o deixava amedrontado. Ao que parecia, o rapaz já guardava há tanto tempo a esperança de poder falar com Anne que, diante da possibilidade de tal feito, perdeu a iniciativa, sendo necessário que Alec lhe desse um breve cutucão para que ele recobrasse o estado de espírito:

- É uma honra...imensa. - Armitage engoliu em seco fazendo uma exagerada reverência militar, totalmente fora de contexto, o que fez com que as jovens rissem um pouco com seus modos desajeitados.

- Será este o bravo rohirrim? - a voz de Elanor ecoou cortante entre suas irritantes risadas - Creio que estamos sendo enganadas.

- Não digas isso, Elanor! - censurou Anne em tom baixo e tímido. - Não deves fazer pouco caso dos bravos senhores.

- Muito sensata a senhorita Anne. - Observou Alec com sua voz grave - Não se deve desdenhar da bravura de um guerreiro assim como não se deve duvidar dos dotes de uma jovem em um salão de festas, pois elas reinam absolutas nestes festivais.

- O senhor fala como se fosse a nossa única virtude, dançar em salões de festas. - Elanor o fuzilou com o olhar de forma tão efusiva que Armitage se encolheu um pouco ao seu lado.

- Obviamente que não, mas posso afirmar que realizar uma dança bem executada é quase tão difícil quanto domar um garanhão. Seria a senhorita capaz de ambos? - Alec deu um meio sorriso que visivelmente denunciava o desafio que ele lançava à donzela.

Os outros três olharam Elanor que ficou brevemente corada e estreitou os olhos um tanto furiosa para Alec e lançou-lhe de modo ousado a resposta de sua provocação:

- Veremos, então, se o senhor está a altura de seu posto. - e tendo dito isto, encaminhou-se para o salão onde se iniciava uma animada quadrilha.

Alec olhou sorrindo para os outros que boquiabertos olhavam Elanor se afastar. Hella, a caçula, ainda tentou protestar, mas o capitão apenas fez um aceno com a mão e se afastou seguindo a impetuosa Elanor até o meio do salão. Armitage e Anne estavam livres da vigilância da segunda filha de sor Grant.

Quando principiaram os primeiros passos da dança, Elanor ainda sentia o corpo um pouco tenso pela excitação do desafio. Quem aquele homem pensava que era a desafiando diante de sua própria família? Elanor era orgulhosa demais para deixar passar uma afronta como aquela. Mostraria àquele cavaleiro que ela era muito mais do que sua aparência frágil deixava mostrar.

Ela sempre fora assim, impetuosa e ardente como o fogo que abrasa em tudo o que fazia. Nunca abaixava a cabeça quando achava que estava certa e jamais recuava, mesmo que o medo a assombrasse. Um eorlinga em corpo de donzela, era o que dizia o pai diante das tantas vezes que Elanor se lançava diante de algum desafio com o ímpeto e a paixão dos grandes guerreiros de Rohan.

Um temperamento forte e um desejo por provar seu valor. Mas, naquele momento, tudo o que Alec conseguia ver era uma linda garota geniosa e mimada tentando provar a si mesma que era melhor que os outros. Talvez fosse um pensamento preconceituoso. No entanto, o rohirrim se divertia vendo que seu plano havia caminhado bem e que seu amigo estava livre com sua amada. Na verdade até achara fácil e divertido enganá-la daquele jeito. Elanor teria uma lição agora.

Dançaram por um tempo no meio do salão, harmoniosamente, como se fossem parceiros de longa data. Elanor percebeu que o rohhirrim era bom dançarino e tentou dificultar os passos. Mas, a cada nova tentativa da donzela em guiar a dança, Alec se impunha em uma nova proposta, e logo cada um tentava impor sua vontade e o descompasso ficou mais que evidente.

- Por que simplesmente não segue a dança, senhor? - Elanor esbravejou o olhando nos olhos.

- Eu estou dançando, senhorita. - Respondeu Alec sorrindo - A senhorita é quem devia me deixar guiar os passos. Eu sou o homem.

A jovem de cabelos cor de palha estreitou os olhos ficando visivelmente corada e abafou um protesto enquanto com os olhos procurava pelas irmãs. Adiante, no mesmo local onde estavam anteriormente, estava apenas Hella. A caçula se balançava levemente ao som da música e sorria para Elanor, quando notou que ela a olhava.

Procurou um pouco adiante pela primogênita que não deveria estar tão longe, mas não viu sinal de Anne. Adiante, o pai e o irmão conversavam com alguns outros senhores importantes de Rohan, mas tampouco encontrou a irmã entre eles.

- Mas onde ela se meteu? - falou consigo mesma em um tom um pouco alto parecendo um tanto intrigada.

Anne não era uma pessoa de muitas surpresas, na verdade. Geralmente Elanor conseguia prever todos os passos da irmã que era uma mulher muito obediente e tímida. Totalmente o contrário de si. Era estranho que ela não estivesse próxima a um dos seus familiares.

Olhou para Alec por um instante. O eorlinga sorria levemente enquanto a olhava de um jeito que lhe pareceu petulante demais. Como se ele estivesse se divertindo às suas custas.

Então tudo pareceu fazer sentido. Aquele olhar jocoso, aquele sorriso de desdém… Elanor procurou um pouco com os olhos e percebeu que Armitage também não estava mais presente no salão.

- Maldito!

A jovem o olhou estreitando os olhos para o capitão que disfarçou fazendo uma fingida expressão de espanto:

- Senhora???

- Então pensas que podes me enganar com este ridículo plano? - ela sibilou em um tom cortante, porém baixo e discreto. - Acreditastes mesmo que eu não notaria que estão tentando me fazer de idiota?

- Bem, demorastes um pouco a perceber, não achas? - Alec sorriu aquele sorriso petulante novamente - Pensei que sequer cairias na nossa armadilha, tão esperta senhorita. Mas vejam só, que surpresa!

Elanor bufou empurrando-o para se livrar dos braços que ainda a aprisionavam na dança que agora não passava de um leve movimento de corpos quase parados.

- O senhor não é tudo o quanto acredita ser! - bradou indignada - Ainda lhe falta muito para isto! - e saiu a passos duros até sumir entre a multidão.

O eorlinga riu da raiva exagerada da moça. Lhe parecia que ela era muito mimada e infantil e Alec se divertiu como nunca a fazendo ficar tão indignada. Ele acreditava que, agora, Elanor aprenderia uma lição e que Anne e Armitage poderiam namorar em paz.

Mas a verdade era que, além de subestimada, a intensa Elanor se sentiu terrivelmente decepcionada. Havia gostado do convite do nobre capitão para dançar e, por um momento, se sentiu lisonjeada que um homem tão nobre se interessasse por sua companhia. No entanto, agora ela percebia amargamente que Alec não tivera o mínimo interesse por ela. Tudo sempre fora um plano para que o inconstante Armitage se aproximasse de Anne.

Ela fora feita de idiota! Alec era tão traiçoeiro quanto os outros homens. Nem mesmo os elogios dados a ele por todos na corte eram reais. Ele era fútil e traiçoeiro e, como os outros homens de Rohan, nunca notaria a moça formidável que ela era.
A festa havia acabado para Elanor. Ela sentia-se triste e assim que encontrou o pai, lhe comunicou que estava indo embora e, mesmo depois que chegou em casa, demorou a pegar no sono, ainda irritada, pois ela realmente o havia achado atraente.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Saindo um pouco da temática de vampiros e adentrando um pouco do universo criado pelo mestre Tolkien, em breve, se iniciará aqui no nosso blog uma nova Fanfic, baseada em um dos nossos amados jogos de RPG de mesa: "A balada do Eorlinga" a história de um bravo cavaleiro das belas planícies de Rohan.
Acompanhe aqui os capítulos dessa linda história, ou através da page: Perdidos na Terra-média




quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

A Luz e a Treva

De sangue irmãos nascidos
Sob estrela funesta gerados
Almas amantes sofridos
Filhos escolhidos do Diabo

A luz, a força, a honra
Raios do Sol em nobre coração espalhados
Pela chama do ódio e o orgulho
Em aço fervente forjado

A treva, suave abismo,
De sombras em doce pecado
Névoa cinzenta em pleno martírio
Rosa rubra do sangue formado

Irmãos no nascimento
Amantes no destino
Fadados ao inferno

Ou ao pecado infinito...

Cleucy de Paula

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014




Ode ao Dragão
Sinais do tempo atravessaram minha vida.
Vi um dragão lutando contra o infinito
Numa noite escura e sem cor
Onde artifícios do demônio
Assolavam a minha alma
Oh, quantas vezes há de salvar-me?
Oh quantas mortes terei de ver
Quando tuas asas encerram o vôo
A esperança deixa meu coração.
A culpa de mil anos vividos
Em um corpo tão jovem e ressequido
A imagem funesta de um sorriso
Que nada mais é que uma máscara
Oh quantas vezes há de salvar-me?
Vejo seu corpo sangrando
Oh quantas mortes em meus ombros
A vida que se esvai
No rugir surdo do Dragão caído.
Há sangue em minhas mãos
Sangue de mil inocentes que se foram
As almas clamam perdão
Mas a minha é pura escuridão
Oh, quantas vezes há de salvar-me?
A confiança se partiu
Nos mil pedaços do coração derrotado
Oh, maldita afeição

Uma lança Trespassou meu coração.




Meara Thalicairion

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

O Nascimento das Trevas - Uma História de Vampiros - 3ª Parte - Final
Escrito por: Cleucy de Paula Silva Araújo Lourenço



1)    Amado pelas trevas.
Parecia ser tarde da noite, pois pelas janelas entrava uma brisa fria e a escuridão no quarto era densa apesar das cortinas estarem totalmente abertas. Num canto do quarto, uma velha criada dormia tão pesadamente que parecia morta.
Ivanovich tentou mexer-se na cama, mas notou que seu corpo não se movia. Sentia-se como se cada membro pesasse uma tonelada e definitivamente não poderia se mover. Fechou os olhos um pouco confuso, tentando lembrar-se de onde estava. Aos poucos percebeu que era seu próprio quarto. Sentia dores na cabeça. O que acontecera?
- Olá, Ivan – uma voz aveludada se fez ouvir nitidamente em sua mente apesar de não poder visualizar seu interlocutor. – Estava esperando que acordasse.
Ivanovich tentou mexer-se mais uma vez, era impossível. Desconfortável, suspirou algumas vezes tentando falar, mas não conseguiu. Apesar da dor e da confusão, varias perguntas se formavam em seus pensamentos. Onde estava Illyana? Lembrava-se vagamente da briga com o pai e sabia que a esposa estava machucada, porém, o que acontecera consigo mesmo? Por que estava naquela cama?
- Acalme-se, Ivan. Sua esposa está viva! – Novamente a voz de veludo se fazia ouvir despertando mais o raciocínio do príncipe. – Porém, teu filho jamais verá a luz do sol.
Ivanovich arfou um pouco diante da revelação (ou sua respiração estava mesmo falhando antes disso?). Seu filho havia morrido? E quem era aquela pessoa que lhe falava com tanta intimidade? Não conseguia ver ninguém de onde estava e tampouco conseguia reconhecer a voz que lhe falava com uma calma quase prazerosa enquanto lhe dava aquelas notícias funestas.
- Sua cabeça foi rachada em duas, Ivan. – a maneira como aquilo soava o fez se arrepiar em pânico – Logo a vida se esvairá de seu corpo.
Ivanovich percebeu que a voz vinha de trás de si. Tentou mais uma vez mover a cabeça para olhar seu arauto de morte, mas falhou novamente. Percebeu o grande espelho que ficava diante de sua cama, do outro lado do quarto. Poderia usá-lo para espiar e descobrir de quem se tratava, mas de nada adiantou. Não havia ninguém ali, apenas a voz masculina aveludada que parecia sentir um certo prazer diante de sua desgraça.
Ponderou se não estaria tendo uma alucinação. A parte de que estava ferido lhe parecia bem real, mas a inexistência de um ser ao seu lado enquanto o ouvia falar claramente o fez duvidar de sua sanidade. Mas o ser etéreo que parecia ouvir cada pensamento do príncipe adiantou-se em respondê-lo mais uma vez:
- Você não está sonhando, nobre príncipe, e tampouco sou fruto de sua imaginação. Sou um amigo mais antigo do que você pode supor, mas nunca me fiz conhecido a não ser através de suas tragédias pessoais.
Instantaneamente, como um pesadelo real, cada uma das tragédias em família foram tomando forma em sua mente como se encenados em um teatro macabro e realista e, a cada fato revivido sofrivelmente pelo herdeiro do czar, um único culpado se delineava como um ser palpável e real, como se a morte fosse criando um corpo diante de si.
- Por... quê? – o som disforme que conseguiu balbuciar em nada se parecia com a sua voz.
- Há tempos que acompanho a cada passo seu, no intento de testar-te e provar a mim mesmo que você é o meu escolhido.
Pouco a pouco a figura de um homem alto e elegante foi se materializando ao seu lado como se saísse das próprias sombras que se estendiam da janela até o lado da cama. Seus olhos escuros e profundos o observavam com o fascínio do pai que mirava seu bebê recém-nascido e ele falava com empolgação quase orgulhosa sobre sua existência imortal e sua escolha pelo príncipe da Rússia para ser o seu herdeiro, sua cria.
Um vampiro. Ivanovich já lera um pouco sobre algumas lendas, mas aquilo era muito absurdo. Novamente fatos íntimos relatados pelo outro o fizeram crer de que não se tratava de uma ilusão, era real e estava diante de si.
- Não há mais um lugar para você entre o mundo dos vivos, Ivan. Mas se tu quiseres, as sombras serão a tua nova casa e tua existência será tão perene quanto tu mesmo desejares.
A respiração de Ivanovich falhou mais uma vez o fazendo perceber que realmente a vida começava a abandonar seu corpo destruído. Sentiu dentro de si a revolta de um jovem que teria todo um futuro pela frente, mas que fora destruído pela obsessão de seu cruel progenitor.
- Você lutou bravamente por sua vida, Ivan. – o homem se inclinou sobre ele quase sussurrando – Mas nem ao menos poderá vingar teus sonhos destruídos, caso queira abrir mão de tua existência.
O príncipe fechou os olhos novamente sentindo o ar se escassear cada vez mais fazendo a cabeça latejar. Seu pai, o monarca, sairia impune dos crimes cometidos. Seu filho assassinado, sua mãe negligenciada e ele próprio, o filho açoitado até a morte, nunca poderiam descansar em seus túmulos pois não haveria justiça nem vingança para suas mortes.
- Porém, caso desejes me seguir, poderá ensinar a Ivan Vassilievich o verdadeiro significado da palavra poder.
Olhou mais uma vez para o vampiro o encarando com os olhos injetados de sangue por causa da hemorragia cerebral. Poder... Sim, Ivanovich fora criado para ser o homem mais poderoso da Rússia, homem para quem os limites não existiam. Agora um poder ainda maior lhe era oferecido através de um ser tão inusitado.
- Por...que... eu...? – vencido pela morte, apenas esperava constatar o que provavelmente já sabia.
- Digamos que... – o vampiro se inclinou por cima dele o olhando nos olhos de maneira lasciva com um sorriso nos lábios – as trevas se enamoraram de ti.
Ivanovich, então cerrou os olhos em sinal de aceitação e pouco depois seu mundo se desfez em sombras e sua existência humana desapareceu para sempre da face da terra. A Rússia havia perdido seu amado príncipe. Mas o mundo das trevas ganhava aquele que viria a se tornar um de seus mais temidos líderes. Morria Ivan Ivanovich, mas renascia Alexei Romanov. Um nobre russo, herdeiro do nome e das posses da amada czarina Anastacia Romanovna. A sombra que perseguiu, enlouqueceu e, por fim, destruiu Ivan, o terrível...


Fim....
Ou não....
Talvez seja só o começo de uma sombra eterna...




O Nascimento das Trevas - Uma História de Vampiros - 2ª Parte
Escrito por: Cleucy de Paula Silva Araújo Lourenço






1)    O herdeiro do czar.
Havia crescido assim, como se a sua vida fosse a coisa mais valiosa do mundo inteiro, afinal, ele era o aclamado herdeiro do grande czar Ivan, o terrível. O primogênito nascido e criado unicamente para guiar o império Russo de volta a tempos de prosperidade e sensatez como uma das maiores nações perante a todas as outras do mundo.
Mas, apesar dos cuidados excessivos, Ivan Ivanovich nem de longe era um rapaz mimado ou de índole duvidosa. Antes, era um homem de caráter forte e atitudes firmes, mas era também gentil e justo em seus julgamentos. Do pai, herdara um gênio forte característico dos que nasceram para liderar e, da mãe, recolhera as atitudes amorosas e o cuidado com os que dependiam de si, além dos modos discretos e belas feições que pareciam ser esculpidas no gelo.
Inteligente e vivaz, Ivan Ivanovich gostava de passar suas horas aprendendo e lendo os escritos trazidos de fora. Em pouco tempo aprendeu a ler, escrever e falar em outras línguas além da sua própria e logo as barreiras diplomáticas se tornavam tênues diante de sua perspicácia e de sua paciência. Tornou-se alguém para quem os limites de pensamento eram praticamente inexistentes. Visionário e hábil com a oratória, mesmo muito jovem já se podia vislumbrar um pouco do genial monarca que se tornaria.
No entanto, apesar do brilhante futuro que se delineava diante do caminho do herdeiro do czar, desde muito cedo o jovem príncipe teve de aprender a lidar com todo tipo de tragédias que vez ou outra assolava a vida da família real. A principal dessas tragédias, sem dúvidas foi a perda da mãe envenenada quando Ivan ainda era muito jovem, e que acarretou na total mudança do pai que se tornou frio, paranoico e cruel, mesmo quando se tratava dos próprios filhos.
Porém, apesar das mudanças de comportamento do pai e das constantes agressões sofridas devido a essas mudanças, Ivan se manteve sereno e equilibrado, como se fosse apenas uma muralha de gelo em meio a uma tempestade de neve. Nada parecia atingi-lo em absoluto e, por isso, chegou à idade adulta carregando em si as esperanças pessoais e de seu povo de que o reinado de terror chegaria ao fim.
Apesar de sua vida permeada por perdas irreparáveis, Ivan Ivanovich não era homem apegado a supertições ou a crendices e por isso, quando conheceu uma jovem que o encantou, permitiu-se amar e acabou por unir-se a essa mulher. Illyanna Yarkova era a pessoa mais incrível que Ivanovich conhecera em toda a sua vida. Jovem de beleza inigualável e gênio inquieto, era como fogo em um dia muito frio e Ivanovich a amava de alma e de coração.
No entanto, Vassilievich não aprovava a união de seu primogênito e a jovem Illyana e, por isso, sempre encontrava uma maneira de entrar em conflito com a moça. Inicialmente, Ivanovich relevava a atitude persecutória de seu pai em relação à moça. Acreditava que a paranoia do pai não traria consequências para si e para sua jovem esposa.
Foi então que Illyana engravidou. A notícia de que seria pai deixou Ivanovich em tal estado de graça que, pela primeira vez, as tragédias vividas durante toda a vida pareciam um pesadelo distante. Nem mesmo os surtos paranoicos de Vassilievich eram capazes de tirar o príncipe do sério. A vida se tornara perfeita e cheia de cores como uma belíssima aurora boreal.
Um dia, porém, quando Illyana entrara no quinto mês da gravidez, a afortunada mãe, empolgada com a imagem de suas formas que começavam a dar os claros sinais da vida que se desenvolvia dentro si, vestiu-se com um traje que lhe modelava a barriga ressaltando a forma arredondada e evidenciando a gravidez já adiantada. Porém, Vassilievich não viu com bons olhos a atitude da nora. Achou que sua conduta era inadequada e suas roupas escandalosas. Apesar de aborrecida, Illyana ignorou os impropérios proferidos pelo sogro, sua felicidade era tamanha e tudo o que ela queria era que Ivanovich a visse, linda como estava.
No entanto, Vassilievich irritou-se ainda mais ao ser ignorado e sem qualquer sinal prévio, atacou a moça com sua bengala de ferro a acertando diversas vezes principalmente na barriga, enquanto bradava aos quatro ventos que o filho bastardo de Illyana nunca tomaria o trono que pertencia a seus filhos.
Por sorte, Ivanovich chegara naquele mesmo momento e, vendo a agressão sofrida pela esposa, se precipitou para cima de seu pai interrompendo o espancamento e salvando Illyana das garras do louco czar. Illyana estava num estado lastimável. Sangrava muito e gritava de dores enquanto segurava a barriga sentindo contrações precoces. Num repente, toda a felicidade parecia se converter mais uma vez numa sombra densa e palpável, como se as trevas se enamorassem dele e reclamassem para si o homem que lhes pertencia.
 Ivanovich encontrava-se novamente num inferno de escuridão. Mas não! Recusava-se a aceitar essa realidade imposta por um pai louco e paranoico que chegara ao limite de sua crueldade. Assim, mal livrou Illyana das garras de Vassilievich, meio cego pelo medo de perder sua amada esposa, jogou-se para cima do pai que investia novamente contra a moça. Porém, seu intento fracassou. Vassilievich, apesar da idade avançada, era, além de um monarca, um guerreiro, e sua força e habilidades superavam em muito as do jovem príncipe que nunca precisara estar em uma batalha real.
Tudo se passou tão rápido que Ivanovich mal sentiu o golpe. Apenas sentiu o corpo se entorpecer em choque e o líquido grosso descer por sua testa turvando-lhe ainda mais a visão. Não sentiu nem mesmo o baque de quando foi ao solo e nem ao menos distinguiu os gritos desesperados dos amigos e criados que chegaram para socorrê-los. Tentou procurar Illyana com os olhos, mas tudo o que pôde ver foi a sombra disforme que o envolvia em seus braços como uma mãe que embala seu bebê.

Mas Ivanovich não estava pronto para se entregar. Vagou pelas sombras por tanto tempo que ele mesmo não tinha noção do quanto. Precisava resistir, precisava lutar, por Illyana, por seu filho. Não deixaria a escuridão levá-lo, não se entregaria à fria mortalha que se estendia diante de si pelas mãos da ceifadora de almas. Então, quando as forças pareciam escassas e um único caminho se delineou diante de si, num ultimo esforço, Ivanovich abriu os olhos...
O nascimento das trevas - Uma história de Vampiros - 1ª Parte


Rússia Século XVI

O mundo todo presenciava as maiores mudanças já vistas, até então. A descoberta do novo continente era a maior prova da superioridade humana e a expansão marítima prometia a ascensão das mais fortes nações do planeta.

Da mesma forma, a recém-formada Rússia se tornara um império forte e soberano sob a tutela de Ivan, o terrível, o implacável czar russo que governava com punho de ferro e espalhava o terror entre seus inimigos e entre seus próprios amigos. Coroado aos 16 anos como primeiro Czar russo reconhecido e abençoado pela igreja ortodoxa, era, inicialmente, chamado de Ivan Vassilievich e trouxe tempos de prosperidade a seus súditos conquistando territórios e expandindo seus domínios antes de finalmente levar o terror à Rússia perseguindo e matando a quem quer que ele imaginasse se opor a seu reinado.

Além da prosperidade que a maioria alcançou com o reinado de Ivan Vassilievich, o czar mandou trazer de outros países manuscritos raros e impressoras para poder disseminar a cultura e mostrar às outras nações que a Rússia não era um país atrasado e bárbaro. Somente depois de algum tempo e após a morte de sua amada Anastácia Romanovna, que fora envenenada, é que o reinado do terror se iniciou.

Esta é a história da Rússia que você pode encontrar em qualquer documento existente nos arquivos da humanidade, porém alguns fatos foram omitidos de todos por óbvias tentativas de se ocultar a sombra que paira sobre a humanidade desde tempos imemoriais.

Por isso, a história aqui relatada não é somente mais uma história sobre a constituição de um grande império erguido por um implacável monarca. Tampouco é uma história de grandes feitos e de linhagens perenes de uma casa imperial. Não é uma história de heróis e de sonhos.

Quiseram as sombras densas da noite que essa história fosse apenas a história de morte e escuridão. Uma historia em que poucos acreditam, mas que todos temem. Pois se trata da história de como as sombras perenes arrebataram o legatário de um trono de horror.

Cleucy de Paula Silva Araújo Lourenço

Obs: Este texto foi escrito com a finalidade de ser um background de um personagem para RPG de Vampiro, a Máscara.
Baseado em fatos reais.

. Atenciosamente, Sra M.T.