segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

O Nascimento das Trevas - Uma História de Vampiros - 2ª Parte
Escrito por: Cleucy de Paula Silva Araújo Lourenço






1)    O herdeiro do czar.
Havia crescido assim, como se a sua vida fosse a coisa mais valiosa do mundo inteiro, afinal, ele era o aclamado herdeiro do grande czar Ivan, o terrível. O primogênito nascido e criado unicamente para guiar o império Russo de volta a tempos de prosperidade e sensatez como uma das maiores nações perante a todas as outras do mundo.
Mas, apesar dos cuidados excessivos, Ivan Ivanovich nem de longe era um rapaz mimado ou de índole duvidosa. Antes, era um homem de caráter forte e atitudes firmes, mas era também gentil e justo em seus julgamentos. Do pai, herdara um gênio forte característico dos que nasceram para liderar e, da mãe, recolhera as atitudes amorosas e o cuidado com os que dependiam de si, além dos modos discretos e belas feições que pareciam ser esculpidas no gelo.
Inteligente e vivaz, Ivan Ivanovich gostava de passar suas horas aprendendo e lendo os escritos trazidos de fora. Em pouco tempo aprendeu a ler, escrever e falar em outras línguas além da sua própria e logo as barreiras diplomáticas se tornavam tênues diante de sua perspicácia e de sua paciência. Tornou-se alguém para quem os limites de pensamento eram praticamente inexistentes. Visionário e hábil com a oratória, mesmo muito jovem já se podia vislumbrar um pouco do genial monarca que se tornaria.
No entanto, apesar do brilhante futuro que se delineava diante do caminho do herdeiro do czar, desde muito cedo o jovem príncipe teve de aprender a lidar com todo tipo de tragédias que vez ou outra assolava a vida da família real. A principal dessas tragédias, sem dúvidas foi a perda da mãe envenenada quando Ivan ainda era muito jovem, e que acarretou na total mudança do pai que se tornou frio, paranoico e cruel, mesmo quando se tratava dos próprios filhos.
Porém, apesar das mudanças de comportamento do pai e das constantes agressões sofridas devido a essas mudanças, Ivan se manteve sereno e equilibrado, como se fosse apenas uma muralha de gelo em meio a uma tempestade de neve. Nada parecia atingi-lo em absoluto e, por isso, chegou à idade adulta carregando em si as esperanças pessoais e de seu povo de que o reinado de terror chegaria ao fim.
Apesar de sua vida permeada por perdas irreparáveis, Ivan Ivanovich não era homem apegado a supertições ou a crendices e por isso, quando conheceu uma jovem que o encantou, permitiu-se amar e acabou por unir-se a essa mulher. Illyanna Yarkova era a pessoa mais incrível que Ivanovich conhecera em toda a sua vida. Jovem de beleza inigualável e gênio inquieto, era como fogo em um dia muito frio e Ivanovich a amava de alma e de coração.
No entanto, Vassilievich não aprovava a união de seu primogênito e a jovem Illyana e, por isso, sempre encontrava uma maneira de entrar em conflito com a moça. Inicialmente, Ivanovich relevava a atitude persecutória de seu pai em relação à moça. Acreditava que a paranoia do pai não traria consequências para si e para sua jovem esposa.
Foi então que Illyana engravidou. A notícia de que seria pai deixou Ivanovich em tal estado de graça que, pela primeira vez, as tragédias vividas durante toda a vida pareciam um pesadelo distante. Nem mesmo os surtos paranoicos de Vassilievich eram capazes de tirar o príncipe do sério. A vida se tornara perfeita e cheia de cores como uma belíssima aurora boreal.
Um dia, porém, quando Illyana entrara no quinto mês da gravidez, a afortunada mãe, empolgada com a imagem de suas formas que começavam a dar os claros sinais da vida que se desenvolvia dentro si, vestiu-se com um traje que lhe modelava a barriga ressaltando a forma arredondada e evidenciando a gravidez já adiantada. Porém, Vassilievich não viu com bons olhos a atitude da nora. Achou que sua conduta era inadequada e suas roupas escandalosas. Apesar de aborrecida, Illyana ignorou os impropérios proferidos pelo sogro, sua felicidade era tamanha e tudo o que ela queria era que Ivanovich a visse, linda como estava.
No entanto, Vassilievich irritou-se ainda mais ao ser ignorado e sem qualquer sinal prévio, atacou a moça com sua bengala de ferro a acertando diversas vezes principalmente na barriga, enquanto bradava aos quatro ventos que o filho bastardo de Illyana nunca tomaria o trono que pertencia a seus filhos.
Por sorte, Ivanovich chegara naquele mesmo momento e, vendo a agressão sofrida pela esposa, se precipitou para cima de seu pai interrompendo o espancamento e salvando Illyana das garras do louco czar. Illyana estava num estado lastimável. Sangrava muito e gritava de dores enquanto segurava a barriga sentindo contrações precoces. Num repente, toda a felicidade parecia se converter mais uma vez numa sombra densa e palpável, como se as trevas se enamorassem dele e reclamassem para si o homem que lhes pertencia.
 Ivanovich encontrava-se novamente num inferno de escuridão. Mas não! Recusava-se a aceitar essa realidade imposta por um pai louco e paranoico que chegara ao limite de sua crueldade. Assim, mal livrou Illyana das garras de Vassilievich, meio cego pelo medo de perder sua amada esposa, jogou-se para cima do pai que investia novamente contra a moça. Porém, seu intento fracassou. Vassilievich, apesar da idade avançada, era, além de um monarca, um guerreiro, e sua força e habilidades superavam em muito as do jovem príncipe que nunca precisara estar em uma batalha real.
Tudo se passou tão rápido que Ivanovich mal sentiu o golpe. Apenas sentiu o corpo se entorpecer em choque e o líquido grosso descer por sua testa turvando-lhe ainda mais a visão. Não sentiu nem mesmo o baque de quando foi ao solo e nem ao menos distinguiu os gritos desesperados dos amigos e criados que chegaram para socorrê-los. Tentou procurar Illyana com os olhos, mas tudo o que pôde ver foi a sombra disforme que o envolvia em seus braços como uma mãe que embala seu bebê.

Mas Ivanovich não estava pronto para se entregar. Vagou pelas sombras por tanto tempo que ele mesmo não tinha noção do quanto. Precisava resistir, precisava lutar, por Illyana, por seu filho. Não deixaria a escuridão levá-lo, não se entregaria à fria mortalha que se estendia diante de si pelas mãos da ceifadora de almas. Então, quando as forças pareciam escassas e um único caminho se delineou diante de si, num ultimo esforço, Ivanovich abriu os olhos...

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