quarta-feira, 1 de abril de 2015




A Balada do Rohirrim




O eorlinga e a donzela.



Os campos vastos de Rohan testemunharam, ao longo dos anos, desde as mais sangrentas batalhas até os mais sublimes milagres. Muitas vidas foram perdidas pelo fio das espadas, manchando de rubro o outrora perene verde da terra dos cavaleiros. Por outro lado, muitas outras vidas e muitas belas histórias tiveram seu início sob o céu e as estrelas que vigiam os campos dos senhores dos cavalos.

Edoras, a grande cidadela dos cavaleiros, era o lar de Alec, filho de Josec, um bravo e honrado rohirrim. Sua casa era tradicional no reino de Rohan e sua família servia aos senhores de Meduseld quase há tanto tempo quanto a chegada de Eorl naquelas planícies.

Desde muito jovem, Alec conhecia e desejava com ardor seu destino. Hábil com uma espada, dizia-se que já nascera montado em um cavalo. Era um domador nato: Conseguia comandar tanto os animais quanto os homens de sua tropa com tanta maestria que não demorou muito para se tornar um dos mais respeitados e amados capitães dos eorlingas.

Era tão admirado por todos na cidadela que muitos pais o cobiçavam para um proveitoso enlace matrimonial. Assim, muitas jovens lhe foram apresentadas, porém, durante algum tempo, Alec vivia apenas para as armas e para sua amada Rohan. Ser rohirrim e estar cavalgando livremente pelos campos eram, sem dúvida, tudo o que o rapaz mais apreciava na vida.

No entanto, o bravo rohirrim não se privava de sua vida social e gostava muito de visitar a taberna, onde podia beber e discutir sobre os mais variados assuntos na companhia de seus melhores amigos, seus companheiros de armas. Na verdade, Alec gostava bastante de festas e sempre participava dos festivais realizados na cidadela.

Entre seus melhores amigos, um se destacava. Seu nome era Armitage e era, em todos os sentidos, muito diferente de Alec. A começar pelo físico, pois Armitage era bem mais baixo e menos encorpado do que o altivo capitão. Além do que Alec era sempre um tanto austero e silencioso, apesar de gentil e dedicado, enquanto que Armitage era falastrão e fraco tanto para bebidas quanto para mulheres. Mas, apesar de tantas diferenças, ambos eram inseparáveis, e Alec, muitas vezes, lhe servia de cabresto sempre que o Armitage se envolvia em uma má situação.

Um dia houve um festejo primaveril em Rohan. Toda a cidade estava enfeitada com as mais diversas cores e muitas guirlandas de flores estavam penduradas nas portas das casas e no próprio palácio. Até mesmo as pessoas pareciam mais alegres com a chegada da nova estação e as ruas apinhadas de barracas de comida enchiam o ar de alegria e bonança.

A mesma animação contagiava o castelo de Meduseld onde a principal comemoração se desenrolava. Um farto banquete era servido aos convidados e a música se espalhava pelo salão fazendo os pares de animados festeiros rodopiarem em alegre dança típica dos eorlingas.

Como era de se esperar em um dia festivo em que pudessem participar, Armitage e Alec acompanhavam todo o festejo desde cedo. Já haviam andado pela cidade e experimentado as iguarias das barraquinhas e jogado os mais variados jogos disponíveis e, por fim, se juntaram às comemorações no palácio de Meduseld. Como rohirrim, tinham lugar de honra entre os senhores de Edoras, caso suas famílias não pertencessem à casa real.

Àquela altura das comemorações, Armitage já apresentava os sinais de alguém que bebera em demasia. Os seus olhos verdes estavam avermelhados e se moviam agitados de um lado para outro sem conseguir parar por muito tempo em um único lugar. Mas a fala, ao contrário dos olhos, já estava mais lenta e arrastada, como se a língua lhe pesasse dentro de sua boca, o que não lhe impedira de fazer tantos gracejos e declarações de amor à tantas moças que Alec, já se sentindo duplamente envergonhado e divertido pela atitude do amigo, se perguntava se algum dia o companheiro se envolveria seriamente com alguma delas.

Foi então que Armitage subitamente parou olhando para um único ponto como se estivesse hipnotizado e soltou um suspiro. Surpreso com aquela reação, Alec acompanhou o olhar do outro para sanar o motivo daquela mudança de comportamento e se deparou com três jovens que riam e brincavam entre si, um pouco adiante.

As três eram igualmente belas em seus vestidos bordados à mão e seus longos cabelos cor de palha, mas eram belezas diferentes entre si, apesar de se notar que eram muito parecidas e que pertenciam a alguma família nobre. Eram as três quase da mesma altura, diferenciadas por apenas alguns centímetros quase imperceptíveis e, mesmo que se pudesse supor que eram irmãs, também era possível notar as diferenças da personalidade de cada uma.

Duas delas olhavam, por vezes, para Alec e seu amigo, e riam acanhadas enquanto cochichavam e disfarçavam seus olhares quando eram surpreendidas pelo olhar dos rapazes. Mas a terceira, não! Inicialmente ela estava alheia aos cochichos de suas irmãs, mas após um comentário das duas, percebeu que os rapazes as observavam, mas não sorriu. Também não pareceu zangada, mas era, ao mesmo tempo, intimidadora, e apenas manteve seu olhar fixo nos rapazes, como quem tinha consciência de sua importância naquele local e isso bastou para que Armitage parasse de olhá-las e se virasse para Alec um tanto perturbado.

- Quem são? - perguntou Alec curioso com a reação do companheiro enquanto olhava mais uma vez para as jovens.

- São as filhas de sor Grant. - respondeu Armitage com um suspiro de desânimo se virando para o capitão. - Vê a de vestido branco com detalhes em dourado? - mostrou com um aceno de cabeça. - Se chama Anne. É a filha mais velha de Sir Grant. Ela já está em idade de se casar, mas é impossível fazer-lhe a corte.

Alec voltou o olhar para as moças e analisou um pouco a garota que Armitage lhe mostrava. A jovem Anne era realmente muito bela. Tinha feições singelas e a face corava um pouco sempre que percebia que os rapazes a olhavam e desviava os olhos com comedida simplicidade. Parecia a mais tímida e contida das três.

- Me parece uma mulher virtuosa. Mas por que a julgas impossível de cortejar? - Alec olhou o amigo novamente.

- Por causa de sua irmã… - desta vez Armitage não se virou e apenas fez uma careta pronunciando o nome com certa raiva. - Elanor… Aquela que está de vestido de cor carmesim.

Mais uma vez, Alec voltou-se para as garotas e encontrou os olhos de Elanor ainda fixos neles, enquanto Anne parecia lhe suplicar que não os encarasse. A jovem tinha um ar altivo e parecia ser bem geniosa, mas o capitão se perguntava como uma jovem tão delicada poderia ser a causa de tantos problemas.

Diante da expressão curiosa de Alec, Argmitage continuou antes de beber mais um pouco de cerveja:

- Elanor é uma verdadeira peste! Não deixa que ninguém se aproxime de suas irmãs. Outro dia tentei falar com Anne, mas esta garota atrapalha qualquer tentativa que eu faça.

- Talvez ela já conheça a sua má-fama com as mulheres. - Alec riu divertido com a careta que o amigo fez diante desta resposta inesperada.

- Estou falando sério, Alec! - reclamou Armitage desconsolado - O que eu sinto por Anne é tão grande que sinto que vai me levar alguns anos de vida, se eu não puder estar com ela.

Normalmente Alec não acreditaria em uma declaração como aquela feita por Armitage em estado de embriaguês, no entanto, havia algo a mais naquelas palavras. Talvez fosse o tom emocionado com que o amigo confessara seu sentimento ou o suspiro que ele dera assim que terminara de falar. O capitão nunca soube explicar o que era, mas sentiu dentro de si que deveria ajudar ao amigo, pois ele falava de coisas verdadeiras. Então procurou sondar um pouco mais da situação antes de prosseguir.

- Mas ela o corresponde? - perguntou enquanto fitava de relance as moças.

- Um ou dois sorrisos, foi tudo o quanto pôde dispensar a mim, pois sempre está acompanhada de suas irmãs. - Respondeu desolado. - Tudo o que eu queria era uma única oportunidade de falar com ela. Era só... Mas, como pode ver, isso é impossível. Com Elanor por perto a única coisa que consigo é ser humilhado.

Alec voltou a mirar as garotas enquanto ouvia o amigo a se lamentar. As três continuavam a conversar entre si, mas não lhe pareceu que o assunto ainda tratasse deles, posto que elas não estavam mais olhando naquela direção. Apenas Anne se atreveu a olhar por cima dos ombros das irmãs por um instante, mas o rohirrim notou a expressão triste e desapontada que ela lançou para Armitage.

Então, totalmente convencido de que deveria ajudar o amigo a conseguir a chance com a qual tanto almejava, Alec tocou o ombro de Armitage, como que para encorajá-lo e depois adiantou-se na direção das donzelas dizendo para o outro:

- Espero que não estejas assim tão bêbado e que teu sentimento seja mesmo verdadeiro.

Por sua vez, Armitage ficou, por um instante, totalmente boquiaberto. Alec iria mesmo falar com as moças? Assombrado e visivelmente constrangido, ele seguiu seu capitão e, um pouco afastado, o viu reverenciar as donzelas. Alec parecia ainda mais altivo naquele momento em que falava com as moças. Armitage observava a tudo com uma pontada de inveja. Gostaria de ter a segurança e a propriedade com que o capitão falava com Elanor de forma que, quando foi chamado para juntar-se a eles, a irmã de Anne não lhe disse nem uma única palavra rude, apesar de ainda olhá-lo com superioridade assustadora:

- Apresento-lhes, senhoritas, Armitage, filho de Kano.

Alec olhou para o amigo esperando que ele cumprimentasse as garotas ou dissesse qualquer outra coisa, mas, ao que parecia, não era somente a presença de Elanor que o deixava amedrontado. Ao que parecia, o rapaz já guardava há tanto tempo a esperança de poder falar com Anne que, diante da possibilidade de tal feito, perdeu a iniciativa, sendo necessário que Alec lhe desse um breve cutucão para que ele recobrasse o estado de espírito:

- É uma honra...imensa. - Armitage engoliu em seco fazendo uma exagerada reverência militar, totalmente fora de contexto, o que fez com que as jovens rissem um pouco com seus modos desajeitados.

- Será este o bravo rohirrim? - a voz de Elanor ecoou cortante entre suas irritantes risadas - Creio que estamos sendo enganadas.

- Não digas isso, Elanor! - censurou Anne em tom baixo e tímido. - Não deves fazer pouco caso dos bravos senhores.

- Muito sensata a senhorita Anne. - Observou Alec com sua voz grave - Não se deve desdenhar da bravura de um guerreiro assim como não se deve duvidar dos dotes de uma jovem em um salão de festas, pois elas reinam absolutas nestes festivais.

- O senhor fala como se fosse a nossa única virtude, dançar em salões de festas. - Elanor o fuzilou com o olhar de forma tão efusiva que Armitage se encolheu um pouco ao seu lado.

- Obviamente que não, mas posso afirmar que realizar uma dança bem executada é quase tão difícil quanto domar um garanhão. Seria a senhorita capaz de ambos? - Alec deu um meio sorriso que visivelmente denunciava o desafio que ele lançava à donzela.

Os outros três olharam Elanor que ficou brevemente corada e estreitou os olhos um tanto furiosa para Alec e lançou-lhe de modo ousado a resposta de sua provocação:

- Veremos, então, se o senhor está a altura de seu posto. - e tendo dito isto, encaminhou-se para o salão onde se iniciava uma animada quadrilha.

Alec olhou sorrindo para os outros que boquiabertos olhavam Elanor se afastar. Hella, a caçula, ainda tentou protestar, mas o capitão apenas fez um aceno com a mão e se afastou seguindo a impetuosa Elanor até o meio do salão. Armitage e Anne estavam livres da vigilância da segunda filha de sor Grant.

Quando principiaram os primeiros passos da dança, Elanor ainda sentia o corpo um pouco tenso pela excitação do desafio. Quem aquele homem pensava que era a desafiando diante de sua própria família? Elanor era orgulhosa demais para deixar passar uma afronta como aquela. Mostraria àquele cavaleiro que ela era muito mais do que sua aparência frágil deixava mostrar.

Ela sempre fora assim, impetuosa e ardente como o fogo que abrasa em tudo o que fazia. Nunca abaixava a cabeça quando achava que estava certa e jamais recuava, mesmo que o medo a assombrasse. Um eorlinga em corpo de donzela, era o que dizia o pai diante das tantas vezes que Elanor se lançava diante de algum desafio com o ímpeto e a paixão dos grandes guerreiros de Rohan.

Um temperamento forte e um desejo por provar seu valor. Mas, naquele momento, tudo o que Alec conseguia ver era uma linda garota geniosa e mimada tentando provar a si mesma que era melhor que os outros. Talvez fosse um pensamento preconceituoso. No entanto, o rohirrim se divertia vendo que seu plano havia caminhado bem e que seu amigo estava livre com sua amada. Na verdade até achara fácil e divertido enganá-la daquele jeito. Elanor teria uma lição agora.

Dançaram por um tempo no meio do salão, harmoniosamente, como se fossem parceiros de longa data. Elanor percebeu que o rohhirrim era bom dançarino e tentou dificultar os passos. Mas, a cada nova tentativa da donzela em guiar a dança, Alec se impunha em uma nova proposta, e logo cada um tentava impor sua vontade e o descompasso ficou mais que evidente.

- Por que simplesmente não segue a dança, senhor? - Elanor esbravejou o olhando nos olhos.

- Eu estou dançando, senhorita. - Respondeu Alec sorrindo - A senhorita é quem devia me deixar guiar os passos. Eu sou o homem.

A jovem de cabelos cor de palha estreitou os olhos ficando visivelmente corada e abafou um protesto enquanto com os olhos procurava pelas irmãs. Adiante, no mesmo local onde estavam anteriormente, estava apenas Hella. A caçula se balançava levemente ao som da música e sorria para Elanor, quando notou que ela a olhava.

Procurou um pouco adiante pela primogênita que não deveria estar tão longe, mas não viu sinal de Anne. Adiante, o pai e o irmão conversavam com alguns outros senhores importantes de Rohan, mas tampouco encontrou a irmã entre eles.

- Mas onde ela se meteu? - falou consigo mesma em um tom um pouco alto parecendo um tanto intrigada.

Anne não era uma pessoa de muitas surpresas, na verdade. Geralmente Elanor conseguia prever todos os passos da irmã que era uma mulher muito obediente e tímida. Totalmente o contrário de si. Era estranho que ela não estivesse próxima a um dos seus familiares.

Olhou para Alec por um instante. O eorlinga sorria levemente enquanto a olhava de um jeito que lhe pareceu petulante demais. Como se ele estivesse se divertindo às suas custas.

Então tudo pareceu fazer sentido. Aquele olhar jocoso, aquele sorriso de desdém… Elanor procurou um pouco com os olhos e percebeu que Armitage também não estava mais presente no salão.

- Maldito!

A jovem o olhou estreitando os olhos para o capitão que disfarçou fazendo uma fingida expressão de espanto:

- Senhora???

- Então pensas que podes me enganar com este ridículo plano? - ela sibilou em um tom cortante, porém baixo e discreto. - Acreditastes mesmo que eu não notaria que estão tentando me fazer de idiota?

- Bem, demorastes um pouco a perceber, não achas? - Alec sorriu aquele sorriso petulante novamente - Pensei que sequer cairias na nossa armadilha, tão esperta senhorita. Mas vejam só, que surpresa!

Elanor bufou empurrando-o para se livrar dos braços que ainda a aprisionavam na dança que agora não passava de um leve movimento de corpos quase parados.

- O senhor não é tudo o quanto acredita ser! - bradou indignada - Ainda lhe falta muito para isto! - e saiu a passos duros até sumir entre a multidão.

O eorlinga riu da raiva exagerada da moça. Lhe parecia que ela era muito mimada e infantil e Alec se divertiu como nunca a fazendo ficar tão indignada. Ele acreditava que, agora, Elanor aprenderia uma lição e que Anne e Armitage poderiam namorar em paz.

Mas a verdade era que, além de subestimada, a intensa Elanor se sentiu terrivelmente decepcionada. Havia gostado do convite do nobre capitão para dançar e, por um momento, se sentiu lisonjeada que um homem tão nobre se interessasse por sua companhia. No entanto, agora ela percebia amargamente que Alec não tivera o mínimo interesse por ela. Tudo sempre fora um plano para que o inconstante Armitage se aproximasse de Anne.

Ela fora feita de idiota! Alec era tão traiçoeiro quanto os outros homens. Nem mesmo os elogios dados a ele por todos na corte eram reais. Ele era fútil e traiçoeiro e, como os outros homens de Rohan, nunca notaria a moça formidável que ela era.
A festa havia acabado para Elanor. Ela sentia-se triste e assim que encontrou o pai, lhe comunicou que estava indo embora e, mesmo depois que chegou em casa, demorou a pegar no sono, ainda irritada, pois ela realmente o havia achado atraente.

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